segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

ALTAY, O ALABÊ DE SÃO GONÇALO

Ele

Caro leitor Daki. Trouxemos pra você uma preciosidade quase desconhecida do grande público. Uma matéria e entrevista com o músico e compositor Altay Veloso. Isso foi em 2008 mas continua ao mesmo tempo atual e intrigante. Virou um registro histórico captado pelo pessoal da Editora Apologia Brasil em sua casa, no Porto da Pedra.

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Genuinamente gonçalense, Altay Veloso é o maior expoente de cultura da cidade. Gravado por diversos artistas da MPB, o intelectual africanista revela seus projetos para o futuro, a trajetória artística, a verve ecumênica, filosofia e politica. Às vésperas de seu aniversário, Altay Veloso aponta caminhos para um mundo melhor através da educação e da cultura, e nos dá uma aula de tolerância quando emocionalmente fala sobre o seu maior projeto: a ópera o“Alabê de Jerusalém”.

Por Helcio Albano, Joyce Braga e Mauricio Mendes
Fevereiro de 2008

Fomos conversar com o músico e compositor Altay Veloso e encontramos, também, um estudioso da história e cultura afro-brasileira e africana. O gonçalense ilustre, morador do bairro Porto da Pedra desde o nascituro, diz que não vê motivo em se apartar da cidade: “Aqui nesta casa nasci. Conheço
os meninos e os velhos da minha infância, cada árvore...”, explica, quase em forma de verso.

Aliás, são os seus versos, cantados pelas as maiores vozes da música brasileira, os responsáveis diretos pela sua fama no país. Divas como Alcione e Leny Andrade e o rei Roberto Carlos já gravaram suas músicas. Além de vários outros grupos e artistas que passeiam por todos os ritmos da singular sonoridade criada pelo povo brasileiro. Fato que deixa Altay orgulhoso, porém, um sentimento que não supera a admiração e a amizade que nutre por seus amigos no meio da arte e da
música.

Se o popular foi o responsável por marcar o seu nome a ferro quente na história da música brasileira, é o erudito o seu grande foco de trabalho atualmente, interesse herdado dos seus avós. Deste interesse Altay resgata o personagem mítico Ogundana de Daomé, que passaria para a história como o Alabê de Jerusalém: “Para a construção da ópera, fiz viagens à Nigéria,Jerusalém, Nova York, além da consulta de vários livros e ajuda de muitos amigos. Aproveitei todos os instrumentos utilizados em
música clássica e os associei aos cânticos afro-brasileiros, cuja produção musical já está traduzida para o espanhol e em breve será traduzida para o inglês.



O Alabê, segundo Altay, é a representação da tolerância, do conhecimento ancestral e da relação ecumênica com todas as religiões. O homem negro que conhece suas raízes. “Eu me pareço com o Alabê porque sei que tenho uma herança. Ela é que me proporciona tudo que tenho porque eu conheço a minha história”, diz o agora estudioso e africanista.

Ainda sobre a sua obra maior, que foi encenada por vários artistas e companheiros de renome nacional, o também escritor revela estar preparando uma série em HQ para distribuição gratuita nas escolas brasileiras. “As crianças precisam crescer sabendo o que querem e o que são”, finaliza.

O OLHAR DO CIDADÃO

Altay Veloso é fiel à cidade onde mora, mas nem por isso lhe escapa o senso crítico: “Em São Gonçalo falta afeto e sobra falta de respeito. A cidade não é olhada do jeito que merece. São ruas sem luz, lama...”, reclama, apontando para a própria rua onde mora.

Sobre os equipamentos de cultura, chama atenção para o pouco investimento na área: “A falta de estrutura impede que se faça shows aqui. Uma cidade deste tamanho não possui um hotel que possa hospedar os artistas”, lamenta.

O artista de 54 anos, se mostra um pai zeloso pelos três filhos que teve, e fala com propriedade sobre educação: “É preciso desconstruir a ideia de que as escolas devem preparar os estudantes para o vestibular. As escolas devem preparar as pessoas para serem felizes”, afirma com a certeza do dever cumprido. “Os meus filhos puderam escolher com liberdade e consciência o que fazem. Um é piloto, outro trabalha com animação computadorizada e a minha filha é cineasta. Todos seguiram o seu caminho”, arremata.

Abaixo a entrevista completa que já é um documento histórico.

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Entrevista com Altay Veloso

Você continua descobrindo a arte?

Altay
A arte faz parte  da minha vida. Eu não saberia viver sem a minha ferramenta que é a produção artística. O meu avô era sanfoneiro e com a minha avó aprendi a gostar de música clássica. O meu pai cantava jongo e o meu tio era de escola de samba. Os meus filhos seguiram outras carreiras: A minha filha é cineasta, o meu filho trabalha com animação computadorizada e o meu outro filho é piloto. Todos seguiram o seu caminho, pois quando se faz as coisas com amor sempre é bem sucedido. Durante a infância eu desenhava, mas a medida que fui crescendo fui me aperfeiçoando na música,mas ainda pretendo retomar a atividade de desenho e pintura.

Quem era o Alabê de Jerusalém e como surgiu a idéia de fazer uma ópera sobre esse personagem?

Esse personagem viveu há dois mil anos atrás.Ele se chamava Ogundana e partiu de sua terra natal, o Daomé(hoje Benin e parte ocidental da Nigéria) aos 12 anos de idade.Atravessou as regiões do Sahel e Núbia(hoje Sudão),chegando no Egito aos 16 anos.Durante esses quatro anos de viagem,Ogundana aprendeu o ofício de médico e sua vida mudou quando curou um legionário romano, e por esse ato, foi levado para Roma aos 24 anos lá permanecendo por mais quatro anos.Alguns anos depois,viajou novamente,desta vez para a Palestina onde desembarcou no porto de Cesárea,e daí, indo para Jerusalém.Ai conheceu uma judia chamada Judite e através dela tomou contato com Jesus Cristo.Com todo o arcabouço religioso acumulado nas suas viagens,passou a se chamar “Alabê de Jerusalém”. Para a construção da ópera,fiz viagens a Ifé na Nigéria,Jerusalém em Israel, Nova York,além da consulta de vários livros e ajuda de muitos amigos.Aproveitei todos os instrumentos utilizados em música clássica e os associei aos cânticos afro-brasileiros,cuja produção musical já está traduzida para o espanhol e em breve será traduzida para o inglês.

Como você vê a relação do cristianismo com outras religiões?

O cristianismo teve o seu papel histórico e já o cumpriu.Por isso, não sei se tem muito tempo ainda,pois as gerações que virão vão descobri que as religiões não dão conta de resolver a questão da preservação do planeta.É preciso reconhecer que o planeta é mais divino que nós,pois é preciso um novo conceito humano de paraíso,que aqui é o nosso lugar.Eu estou formulando um musical futurista,que se passa daqui a duzentos anos,época em que viver na Terra está extremamente difícil(espero que isso não aconteça)l e o ser humano procura um planeta semelhante ao nosso para dar continuidade a espécie humana. Eles chegam a um planeta chamado “Aruanda”,habitado pelos orixás,revelando que eles existem independentes dos seres humanos.

Os europeus se cristianizaram há quase dois mil anos,mas na renascença o panteão pagão grego foi reabilitado enquanto o panteão africano ia sendo desqualificado com a vinda dos africanos paras as Américas.Como você vê essa questão?




A presença do europeu no novo mundo tirou muito da memória da África com a sua catequese. Precisamos de uma nova relação religiosa onde se aponte para o ecumenismo, pois não há nada mais próximo da natureza que os orixás. Já nos primórdios do cristianismo, Alabê de Jerusalém observou que os judeus só poderiam mesmo ter um único Deus, pois na Palestina os rios são escassos,logo não se pode cultuar uma deusa como a Oxum,não há florestas para o culto de Oxossi,nem mesmo Iemanjá pode existir aí,pois o mar é morto.Assim,todas as religiões tem ligações com a natureza e precisamos mostrar que temos um panteão religioso sem ter vergonha disso.Perdemos o orgulho pelo simples desconhecimento,daí a idéia de construir uma história em quadrinhos  sobre o Alabê de Jerusalém.Eu tenho uma herança – a ancestralidade – ela é que me proporciona tudo que eu tenho,eu conheço a minha identidade porque eu conheço a minha história.Eu inclusive tenho um amigo chamado André Mingas que é ministro da cultura em Angola e converso com ele sobre a possibilidade de intercâmbio cultural entre o país dele e o Brasil,onde poderíamos aprender muito entre si.

Vamos falar um pouco sobre política. Como você via o período obscuro da ditadura militar? Qual a sua participação nesse período?

Como a maioria do povo eu desconhecia a dimensão do que era a ditadura militar, pois havia censura e as informações eram muito poucas. Lembro-me que a palavra terrorista assustava muita gente – e não podia ser diferente – na medida em que os militares faziam a propaganda do terror. Trabalhava em uma casa noturna no centro de São Gonçalo e quando terminava o meu trabalho, eu ia caminhando para casa com o meu violão nas costas, eu sentia que era observado por policiais e tive muitos amigos que foram presos sem terem qualquer ligação com alguma organização política. Havia um clima de terror, todos sentiam medo da presença da polícia pois tinha-se a sensação que todos poderiam ser presos a qualquer momento.Quanto a minha participação política confesso que nunca fui um militante político, pois me apavorava a ideia de deixar os meus pais desesperados com a minha hipotética prisão.Só para vocês terem uma idéia da paranóia que reinava na época, eu pus fogo em 70 exemplares do Pasquim com medo de minha casa ser invadida e me prenderem. Esses procedimentos me valeram muitas críticas, embora boa parte  dos que me criticavam sejam de direita nos dias de hoje.

Vamos falar sobre a “terrinha”. Você é uma pessoa bem sucedida, poderia tranquilamente mudar-se de São Gonçalo. Por que não o fez?




Eu nasci nesse terreno.Tenho boas relações com os vizinhos que eu conheço desde criança,ou seja,eu nasci e cresci nesse lugar.Ninguém sabe do dia de amanhã,mas não sinto necessidade de me mudar.

Como você vê a cidade de São Gonçalo?

Quando eu era criança a cidade era pequena e hoje São Gonçalo é uma metrópole.A cidade não é olhada do jeito que ela merece.O povo em especial é fantástico.É uma pena.A maioria das ruas está cheia de lama,falta luz( ele aponta para a própria rua onde mora) e por conta disso dá vontade de sair.A falta de infra estrutura impede por exemplo que se faça shows aqui na cidade, pois uma cidade desse tamanho não tem um hotel, e logo, não pode hospedar artistas.

A estrutura estatal está viciada em benesses. No Brasil todos sonham em fazer parte do estado, sejam eles liberais comunistas e outros que acreditam na estabilidade do emprego público, gerando incompetência, nepotismos, vantagens pessoais e outras mazelas que fazem com que a cidade fique desse jeito. Você acredita que isso seja uma deficiência do estado?

Em São Gonçalo falta muito afeto e sobra falta de respeito. Isso é um reflexo claro que o estado envelheceu e não se pode esperar muito do Estado. Por isso ele se comporta desse jeito. O Alabê de Jerusalém foi financiado pela UNIMED, sem ajuda da Lei Rouanet. Já a instalação do teatro foi difícil conseguir. Mas acredito que com o tempo vão desaparecer as estruturas velhas

Por conta da vinda do pólo petroquímico existe uma expectativa muito grande para a geração de emprego e renda. Muitas entidades estão escrevendo projetos para que a PETROBRAS financie, principalmente no ramo da cultura. Como você vê isso?

A PETROBRÁS faz trabalhos interessantes sobre financiamento.

Como você avalia as escolas hoje?
É preciso desconstruir a idéia de que a escola tem que preparar os estudantes para o vestibular. A escola deve preparar as pessoas para serem felizes. Esses estabelecimentos não dão as crianças a possibilidade de desenvolverem cedo a sua vida e aí as pessoas crescem não sabendo o que querem e o que são.

Para finalizar. Você fez parte do famoso “Clube do Samba”?

Não fui. Mas conheci o João Nogueira e conheço a Beth Carvalho.Na verdade eu nuca fui um sambista, aprendi a sambar na avenida com a Porto da Pedra.

Obrigado pela entrevista. Foi muito proveitosa.

Eu que agradeço.
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Uma palhinha do Alabê.






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